Ares do viajante
Pedro Gontijo
Andarilho que se senta à beira da estrada...
Não apague, minha menina...
Sabe por que ela tem saudades...
Dos mil sonhos possíveis...
Pouco me basta saudade...
Aquele que caminha em sonhos...
Andarilho que se senta à beira da estrada
Pouco pensa no risco de não mais levantar
Se sabe olhar à volta a pensar em coisa alguma
Perde-se no mundo sem sair do lugarAndarilho sai às voltas pelo mesmo caminho
Sabe que mais vale a si mesmo visitar
Junto à bagagem o ansioso desejo por um canto
Com seu gosto que se pode chamar larAndarilho se levanta a olhar os próprios pés
Sabe o que encontra antes mesmo de chegar
Demora-se na viagem, na paisagem
Demora-se cansado, peregrino
Inspira o ar genuíno de quem sai rumo ao mundo
E caminha, passa, rumo a seu mundo.
Não apague, minha menina
Que o pavio ainda fumega
Toda a vida ainda ensina
O navio ainda navegaAinda há brasa no forno
Café quente na chaleira
Noz com chocolate morno
Junto ao fogo ainda beiraOuça a música, o repique
Do belo, inconstante sino
Não há voz doce que implique
Em tão sacrossanto hinoNão há cor, do olho o brilho
Anuviada pelo fumo
E água, nem empecilho
Da mente a vagar sem rumoQue tirem o sopro do rosto
A lição por fim aprendida
A vida e o mais leve gosto
Delícia, nada imposto
Presente da própria vida.
Sabe por que ela tem saudades de mim?
Porque estive.
As coisas fugazes não deixam saudades
Só a deixei porque estive inteiro para ela
E só estive para ela porque fui ao seu encontro.Só quem ama busca primeiro, imensuravelmente.
Dos mil sonhos possíveis colocados à minha frente
Daqueles que poderia querer
Daqueles que seriam
Escolhi um só.
Pouco me basta saudade
Bastam-me letras, doce, reciprocidade.
Aquele que caminha em sonhos
Sem ter onde parar
Sentou os olhos risonhos
Ao lado do caminho, clareando
Como se fizesse luarAquele que ouviu risadas, bem acordado
Em línguas que não conhecia
Tomou o trem atrasado
De pé, meio apertado
Pro lugar que ainda não viaAquele que voltou saciado, de tudo
Que não pôde ver, só sentir
Deitou-se ao colo terno, mudo
Sonhando feliz com o Eterno
E com aquilo que ainda há de vir.